sábado, 14 de março de 2009

O homem que tudo achava

Malba Tahan*

Duas horas depois, Pedrinho e seu companheiro de jornada reuniram a reduzida bagagem que traziam e rei­niciaram a viagem para o Iguatu.

A estrada que percorriam era lar­ga e bem-feita. Juazeiros com os ra­mos verdes estendiam pelo chão as manchas largas de sua sombra. Não cruzaram, em caminho, com outros viajantes. Naturalmente, a ameaça do vulcão fizera fugir todas as pes­soas daquela região. Pedrinho notou que o seu compa­nheiro, de vez em quando, interrom­pendo a palestra, parava um momen­to e abaixava-se para apanhar no chão um objeto qualquer.

A princípio o menino não deu im­portância ao caso, mas sua repetição constante começou a chamar-lhe a atenção.

Reparou, então, que o curioso via­jante era de uma sorte incrível para achar objetos ocultos; pôde observar que, em menos de uma hora, achara duas chaves, três anéis, uma corren­te de ouro, cinco ou seis moedas, uma faca e outros objetos de menor importância.

"É incrível!", pensava Pedrinho. "Como pode esse homem achar tan­ta coisa, enquanto eu, por mais que arregale os olhos, não consigo achar uma simples ferradura?" Devia, ser, naturalmente, algum dom extraordi­nário que o cavalheiro de barba lou­ra possuía, e que lhe facultava a pos­se de todos os objetos perdidos no mundo.

Ao vê-lo, finalmente, arrancar do meio da areia da estrada uma espé­cie de rosário de contas avermelha­das, não se conteve e observou, com um sorriso de admiração:

– Nunca vi sorte como a sua pa­ra achar coisas perdidas!

– Não é questão de sorte, meu jo­vem amigo – respondeu-lhe o ho­mem da barba loura –, trata-se, apenas, de uma habilidade que pos­suo, e que consegui adquirir com o auxílio de pedacinhos de um botão durante o tempo em que estive pre­so!

– Pois olhe, eu já me admiro muito de que uma habilidade ajude tanto o senhor, mas não percebo o que possam ter os pedacinhos de bo­tão com isso.

– Pois é a pura verdade – repli­cou ele calmamente. – É a pura ver­dade.

E, querendo satisfazer a viva cu­riosidade de Pedrinho, narrou-lhe o seguinte:

– Meu nome é Miguel e sou na­tural da Rússia. Nasci em Moscou, a famosa capital. Quando tinha vin­te anos, mais ou menos, influencia­do por alguns companheiros de es­tudos, tomei parte numa conspiração contra o governo do czar. Inútil será dizer que os nossos planos foram des­cobertos e todos os conspiradores presos. Graças à intervenção de um amigo da família, livrei-me de ser enviado para a Sibéria. Condenaram-­me, ainda assim, a quinze anos de prisão, em Moscou. Nos primeiros meses de cárcere, fui torturado por um tédio horrível. Não tinha que fa­zer durante o dia inteiro. Passava-os, a fio, sentado estupidamente em urna laje da cela, procurando descobrir um meio qualquer de me distrair, al­guma coisa com que me ocupar. Um dia, arranquei um dos botões da mi­nha roupa. Quebrei-o em vários pe­daços, ajuntei-os na palma da mão e pus-me a refletir sobre o que faria com eles, quando, distraindo-me, deixei-os cair no chão. Este inciden­te, que noutras circunstâncias seria trivial, sugeriu-me um passatempo excelente – procurar os pedacinhos de botão. E assim, depois de reuni­-los na mão, fechava os olhos e ati­rava-os a esmo para o ar. Isso feito, punha-me a procurá-los e não des­cansava enquanto não os tinha apa­nhado um por um. Repeti essa proe­za, uma ou mais vezes por dia, du­rante os quinze anos em que estive preso. A distrair-me assim, desen­volveu-se em mim um golpe de vista extraordinário que me proporciona hoje a habilidade de descobrir os menores objetos ocultos. Sou capaz de achar um grão de trigo perdido no meio de um areal. O interesse que de­monstrei pelo lago, junto ao qual es­tivemos parados, foi motivado pelo fato de eu ter percebido que havia um objeto qualquer, talvez de grande va­lor, abandonado no fundo. Voltarei mais tarde para buscá-lo.

E, sorrindo à estupefação de Pe­drinho, o antigo prisioneiro russo acrescentou:

– Há três anos que consegui fu­gir do meu país. Hoje vivo exclusi­vamente da habilidade que adquiri na prisão. Vim ao Brasil à procura de diamantes. Já estive em Mato Gros­so e Goiás. Pretendo montar, numa grande cidade, uma grande agência de "Perdidos e Achados", que pres­tará inestimáveis serviços à popula­ção.

E, depois de uma pequena pausa, disse resoluto:

– Pude notar que você é um me­nino valente e discreto. Quer ser meu auxiliar?

E, sem esperar que Pedrinho res­pondesse, afastou-se e, abaixando-se, a alguns passos mais, apanhou no chão uma bolsa escura de couro que se ocultava sob as folhas secas, ao la­do da estrada.

Meditou Pedrinho sobre a curiosa história de Miguel, o russo, e con­cluiu que um homem ativo e inteli­gente, mesmo no fundo escuro de uma prisão, pode adquirir, com au­xílio de uma insignificância qualquer, uma habilidade extraordinária, capaz de proporcionar-lhe, mais tarde, uma útil e rendosa profissão.

Miguel era o "homem que tudo achava" ou melhor "o homem que tudo via".

* Júlio César de Melo e Sousa,
escritor, matemático brasileiro e um mestre na arte de contar histórias, um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil, é famoso no Brasil e no exterior por seus livros de recreação matemática e fábulas e lendas passadas no Oriente, muitas delas publicadas sob o heterônimo/pseudônimo de Malba Tahan. Seu livro mais conhecido, O Homem que Calculava, é uma coleção de problemas e curiosidades matemáticas apresentada sob a forma de narrativa das aventuras de um calculista persa.

Um comentário:

elenir disse...

Gostei do texto do homem que tudo via, acho que vou ler o livro para saber mais sobre esse autor brasileiro.