quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Amor de Pai

Por Miguel Heichard

Caros leitores, no mês de agosto o blog O lado negro da mente humana estará apenas, e somente postando textos para o concurso de contos. Retornará a atividade normal em 1/9/2009. Caso queiram participar, envie seu conto para Debby Lenon debbygrupos@uol.com.br ou Sandra Franzoso franzososand@hotmail.com, com cerca de 6.000 caracteres, fonte Arial, Corpo 12, com tema sobre o lado negro da mente humana. Os três primeiros lugares ganharão um livro como premiação. Avante ‘escrivinhadores’ ou com pretensão a tal !!!

Abaixo o conto que escrevi, e está concorrendo. Espero que gostem.


Não, não, nããoooooooooooo!!!!! – gritava Juliana desesperada ante a visão da morte de Altamir, seu pai.

Não morria de amores por ele, pois o mesmo nunca pareceu se preocupar com ela. Ao menos a indagava se tinha conseguido alguma boa nota na escola, que a levasse a aumentar sua auto-estima.

Sua mãe viveu anos, ou melhor, desde que se conheceu como gente, e ela nunca viu um gesto de carinho sequer para com ela.

Desgastada, martirizada, maltratada pela vida, viu sua mãe definhar de uma estranha tuberculose que a levou em menos de um ano e, seu pai ao menos foi ao sepultamento.

Mesmo assim ela nutria um amor de gratidão ao pai, que nunca deixou que lhes faltasse nada. Caminhoneiro de longa data, já rodara todo o País e, o conhecia como a palma de sua mão.

Passara ansiedade na infância por meses com a ausência do pai. Com tanta carga para ser levada o tempo era pouco e, às vezes emendava rotas que pareciam não ter fim.

Logo problema financeiro, não era o que marcara sua vida, mas sim a falta da presença afetiva do pai.

Essa figura que agora ia se apagando no tempo e na memória de Juliana, iria se tornar simples lembrança.

Meses se passaram até que numa tarde de outono, em que o vento varria as folhas que teimavam em cobrir o quintal, alguém aparece pedindo informações sobre o seu pai.

Era alto, mulato, muito mal encarado e com uma cicatriz que mais parecia uma costura cruzando o rosto e se titulou Anésio. Dizendo-se credor de uma dívida antiga de jogodo seu Altamir.

Ela tenta explicar que não tem informações sobre o caso. Apesar de ter uma pequena economia guardada, ela afirma que não pode pagar o que o pai deixou de dívidas.

A discussão acorda, sua única parente ali, a irmã, Mariana, de nove anos que se encontrava muito doente e, a quem somente a tem como proteção e indaga sobre o que estava acontecendo, e quem era aquele homem que bradava com aquele vozeirão.

Bastante descontrolado e demonstrando muita irritação, ele parece querer bater o martelo firme na seguinte proposta:

– Me arrumem R$ 100.000 e, eu esqueço o total da dívida de seu pai.

Total esse que ninguém sabe se realmente existe.

Após muita discussão Anésio se aproxima de Juliana e tenta a todo custo lhe seduzir, como se isso fosse zerar a dívida deixada pelo pai.

Ela se esquiva de todas as maneiras, mas o canalha insiste que o pagamento tem que ser feito de uma forma ou de outra, senão matará as duas. A menina começa a chorar e, aos prantos cada vez mais irrita o bandido que promete calar de vez a criança.

Num momento de distração Mariana vai até à cozinha e se arma de um facão. Mas, a imprecisão e fragilidade da menina faz com que Anésio se irrite ainda mais e, num momento mais brusco para desarmá-la, a corta na mão, o que obriga Juliana a fazer um curativo na irmã.

Já anoiteceu e ele insiste em que não irá embora enquanto a situação não for resolvida, o que leva Juliana a entrar em pânico, já que a cidade mais próxima está a 30 km dali, está sem telefone por conta das ventanias recentes e ainda por cima a irmã doente dificulta tudo.

Anésio corre em sua direção e tenta agarrar-lhe. Juliana se esquiva parte para o outro lado da sala e alcança uma espada que compõe uma escultura de Dom Quixote. A luta recomeça e neste momento ele a esmurra atingindo seu olho fechando-o pelo traumatismo.

Mariana começa a gritar e corre em prantos por toda a casa, mas nada parece conter o criminoso.

Juliana sobe correndo a escada que leva ao seu quarto numa tentativa de se esconder e pegar algum dinheiro e documento.

Anésio muito rapidamente a alcança no quarto. Ela já com a bolsa na mão visualiza o abajur, um elefante de bronze, e o atira contra o criminoso, que tonto perde o equilíbrio e cai na cama, o que dá tempo de trancá-lo.

Neste momento, algo parece que a determina que fuja de casa com a pequena Mariana e caminhe até a estrada.

Está escuro, mas andam o mais rápido que podem para chegar lá.

Eis que de repente dois enormes faróis as cegam. Juliana mesmo sem enxergar nada acena pedindo carona, no que é prontamente atendida.

Ao parar o motorista diz – Entrem minhas filhas.

Sem nem mesmo olhar para quem as está ajudando, Juliana e a irmã entram na boléia e seguem sem emitir uma só palavra. O silêncio só é quebrado após 20 minutos de viagem quando ela vê que se aproximam do posto de gasolina que lhe era familiar. Descem e agradecem sem mesmo olhar para o motorista.

O motorista responde: – Fiquem com Deus!!

Logo aparecem e Seu Ramiro dono do posto e Valdir o frentista que apostam não saber como, mas juram que o caminhão que as trouxeram era de seu Altamir, o mesmo ronco de motor, a mesma buzina, a mesma luz e, o mesmo caminhão azul?

E, como? Se ele já estava morto?

5 comentários:

Sissym disse...

Que conto!!! Vai ter continuação?!?! Fiquei com vontade de ler mais...

danddara disse...

Paii, adoreii o seu conto...Está bastante criativo continue assim.

Bjão
da Sua Filha Danddara

Anônimo disse...

Belo e instigante conto, Miguel. Parabéns!

Victor S. Gomez disse...

Boa sorte irmão. bj

therezinha disse...

Seu conto está maravilhoso. Bjs